SCN1A / DRAVET

Sinais, Sintomas e Tipos de Crises

A Síndrome de Dravet é uma encefalopatia epiléptica grave de início precoce na infância. Na maioria dos casos (cerca de 85%), a condição ocorre devido a uma mutação no gene SCN1A.

Esse gene é responsável por codificar a subunidade do canal de sódio NaV 1.1. A mutação resulta, comumente, na perda de função desse canal, desencadeando crises epilépticas que costumam ser farmacoresistentes (resistentes aos medicamentos tradicionais) e são acompanhadas por déficits no neurodesenvolvimento psicomotor.

Tipos de Crises e Fatores Desencadeantes

As crises epilépticas na Síndrome de Dravet surgem frequentemente após episódios de febre ou vacinação. Os pacientes podem apresentar múltiplos tipos de crises, incluindo:

  • Crises focais clônicas: hemiclônicas recorrentes, que frequentemente alternam de lado a cada crise.
  • Crises febris e afebris.
  • Crises focais evoluindo para tônico-clônicas bilaterais (CTCB).
  • Crises clônicas generalizadas.

Gatilhos Comuns das Crises

O manejo da síndrome exige atenção aos principais fatores que podem desencadear os episódios:

  • Quadros de febre ou hipertermia (mesmo que baixa);
  • Doenças não febris e aplicação de vacinas;
  • Ambientes muito quentes ou ruidosos;
  • Mudanças bruscas da temperatura corporal (banhos quentes, calor excessivo, exercício físico);
  • Determinados estímulos visuais, como padrões geométricos e luzes;
  • Estresse emocional ou picos de excitação.

Como é feito o Diagnóstico?

O diagnóstico da Síndrome de Dravet baseia-se na avaliação clínica e em exames complementares:

  • Teste Genético: Painel de epilepsias ou Exoma (fundamental para confirmar a mutação SCN1A).
  • Ressonância Magnética (RM): Geralmente apresenta laudo normal.
  • Eletroencefalograma (EEG): Pode apresentar achados inespecíficos ou mesmo resultados normais.

Opções de Tratamento e Medicamentos

O tratamento da Síndrome de Dravet é complexo e deve ser estruturado em etapas, priorizando as seguintes linhas de medicação:

Linha de Tratamento Medicamentos Indicados
Primeira Linha Ácido valproico.
Segunda Linha Clobazam, estiripentol e fenfluramina*.
Terceira Linha Canabidiol.
Quarta Linha Topiramato e dieta cetogênica.
Outras Opções Estimulador de nervo vago (Terapia VNS), levetiracetam, clonazepam, zonisamida, etossuximida (para ausências) e cenobamato.

*Nota: A fenfluramina tem demonstrado efeito promissor, embora ainda não esteja autorizada no Brasil. A fenitoína pode ser importante em casos específicos de estado de mal epiléptico.

Tratamentos Adicionais

Além dos fármacos diretos, o manejo da qualidade de vida do paciente pode incluir Estimulação do Nervo Vago (Terapia VNS), adesão à dieta cetogênica e uso de multivitamínicos (principalmente Vitamina D).

⚠️ Medicamentos que devem ser evitados

Certos fármacos frequentemente exacerbam as convulsões e são contraindicados. Evite bloqueadores de canal de sódio como:

  • Carbamazepina
  • Oxcarbazepina
  • Lamotrigina
  • Lacosamida
  • Vigabatrina
  • Fenitoína (observação: contraindicada na rotina, mas pode ser útil estritamente em estados de mal epiléptico).

Comorbidades Mais Comuns

A Síndrome de Dravet afeta o corpo de maneira sistêmica, trazendo diversas comorbidades que exigem acompanhamento multidisciplinar:

  • Neurológicas e Psicomotoras: Problemas de movimento, marcha e equilíbrio; prejuízo no desenvolvimento; características do espectro autista e incapacidades de comunicação.
  • Gastrointestinais e Nutricionais: Constipação, dismotilidade, distúrbios do crescimento, problemas de nutrição e osteopenia.
  • Disautonomia: Bradicardia, dificuldade de regulação da temperatura, diminuição de suor, oscilações de pressão, tonturas, síncopes, rubor anormal e extremidades frias.
  • Outros: Infecções respiratórias recorrentes e exacerbação das crises no período pré-menstrual.

Risco de SUDEP (Morte Súbita Inesperada em Epilepsia)

O risco de morte por SUDEP na Síndrome de Dravet gira em torno de 15% a 20%. Por essa razão, é fortemente recomendada a monitorização com vídeo durante o sono.

Diagnóstico Diferencial: Sinais de Alerta e Exclusão

É essencial que médicos observem os sinais de alerta que podem apontar para diagnósticos diferentes do Dravet, tais como:

  • Ausência de histórico de crises prolongadas (superiores a 10 minutos).
  • Falta de sensibilidade à febre como um gatilho.
  • Início das crises muito cedo (1 a 2 meses) ou mais tarde (15 a 20 meses).
  • Ausência de variante patogênica no SCN1A.
  • Boa eficácia no uso de fármacos antiepilépticos (FAC) bloqueadores de canal de sódio.
Sinais de exclusão direta: Presença de espasmos epilépticos, ressonância magnética apontando lesão focal ou diagnóstico de outra encefalopatia epiléptica.

Apoio, Conscientização e Referências

  • Data de conscientização: 23 de Junho.
  • Símbolo Oficial: Borboleta.
  • Associações e Grupos de Apoio: Dravet Foundation, Dravet Portugal, Dravet Italia.

Referências Bibliográficas

  • Valls Carbó A, Beltrán. What have we learned from the real-world efficacy of FFA in DS and LGS? DOI: 10.1016/j.yebeh.2024.109620.
  • Wirrell EC, Scheffer IE, Wilmshurst J, Sullivan J (2022). Consenso internacional sobre diagnóstico e tratamento da síndrome de Dravet.
  • Wirrell EC. Otimizando o diagnóstico e tratamento da síndrome de Dravet: recomendações de um painel de consenso norte-americano. Pediatric Neurology.
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